Saúde Coletiva e o Planeta Comum: o Chamado das Mulheres Indígenas de Cura pela Terra

Marianna Assunção Figueiredo HOLANDA

Resumo


Este artigo reflete sobre o que vem sendo coletivizado e publicizado pelo Movimento de Mulheres Indígenas no Brasil, por meio uma pedagogia política que dialoga diretamente com movimentos e lutas de caráter mais geral e com pautas e agendas como o Bem Viver, o decrescimento, a desglobalização (nomeando o capitalismo) assim como se apropria do feminismo – pautando ecofeminismos e feminismos comunitários (nomeando o patriarcado). As mulheres indígenas dialogam assim com pilares importantes do pensamento decolonial na América Latina pautando desigualdades de raça, etnia e gênero. Conversam também com as ideias de Mãe Terra e de Pedagogia da Terra pautando movimentos anti-antropocêntrico pela nossa casa comum. Me interesso menos sobre seus regimes ontológicos particulares (que poderíamos chamar de cultura) e mais sobre a decisão política de quais aspectos destas “culturas” podem ser alavancados para construir alianças políticas. Histórias sobre adoecimento e sobre pandemias continuadas, mas também sobre o reencantamento pela vida: sobre coisas que ignoramos como coletividade colonial. Nas palavras das mulheres indígenas, sobre indigenizar e reflorestar corações.

Mulheres Indígenas. Corpo-território. Bem Viver. Decolonização. Pluralismo.


ABSTRACT

This article reflects on what has been publicized by the Movement of Indigenous Women in Brazil, through a political pedagogy that dialogues directly with movements and struggles of a more general character and with agendas such as “good living” (Buen Vivir), degrowth, deglobalization (pointing out capitalism), as well as feminism – addressing ecofeminism and community feminism (pointing out patriarchy). Indigenous women are, therefore, in dialogue with important pillars of decolonial thought in Latin America based on race, ethnicity and gender inequalities. They are also in dialogue with the ideas of Mother Earth and ‘Land as Pedagogy’ (‘Land-based Pedagogy’) following an anti-anthropocentric movement in favor of our common home. This article is less about their particular ontological regimes (which we could call culture) and more about the political decision of which aspects of these "cultures" can be leveraged in order to build political alliances. It concerns stories about illnesses and continued pandemics, but also about the re-enchantment for life: about things we ignore as a colonial collectivity. In the words of indigenous women, it’s about indigenizing and reforesting hearts.

Indigenous Women. Body-territory. Buen Vivir (Good living). Decolonization. Pluralism.

 

RESUMEN

Este artículo reflexiona sobre lo que ha sido colectivizado y publicitado por el Movimiento de Mujeres Indígenas en Brasil, a través de una pedagogía política que dialoga directamente con movimientos y luchas de carácter más general y con agendas y agendas como Bem Viver, decrecimiento, desglobalización. (nombrando capitalismo) así como apropiándose del feminismo - guiando ecofeminismos y feminismos comunitarios (nombrando patriarcado).  Las mujeres indígenas dialogan así con importantes pilares del pensamiento descolonial en América Latina basado en las desigualdades de raza, etnia y género.  También hablan de las ideas de la Madre Tierra y la Pedagogía de la Tierra, guiando los movimientos anti-antropocéntricos a través de nuestra casa común.  Estoy menos interesado en sus regímenes ontológicos particulares (que podríamos llamar cultura) y más en la decisión política de qué aspectos de estas “culturas” pueden aprovecharse para construir alianzas políticas.  Historias sobre enfermedades y pandemias continuas, pero también sobre el reencanto por la vida: sobre cosas que ignoramos como colectividad colonial.  En palabras de mujeres indígenas, sobre indigenizar y reforestar corazones.

Mujeres Indígenas.  Territorio del cuerpo.  Bueno, vive.  Descolonización.  Pluralismo.


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DOI: https://doi.org/10.33052/inter.v7i13.250068

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