Consciências Libertárias, Práticas Colonizadas: Docência e Saúde Através da Pandemia

Izabela Amaral CAIXETA

Resumo


Em meio a pandemia do COVID 19, a educação pública no Distrito Federal aposta no retorno remoto às atividades pedagógicas, normalizando as desigualdades sócio raciais quanto ao acesso e à garantia de condições de estudo e trabalho das comunidades escolares, esvaziando também a importância das construções coletivas das ações. Busca-se aqui cartografar, desde um olhar auto etnográfico, as dinâmicas interseccionais das opressões presentes nos processos de saúde e adoecimento que afetam a educação através desse contexto de pandemia racializada. Indaga-se em que medida o enfrentamento ativo ao epistemicídio e ao racismo estrutural como horizontes contra coloniais na educação pública podem atuar como ações de promoção da saúde para além dessa experiência atual. Argumenta-se que a descolonização de consciências e subjetividades, enquanto necessário papel pedagógico, podem trazer lugares de cura e fomentar engajamento coletivo para uma co-construção de novos mundos.

Educação. Saúde. Contracolonialismo. Epistemicídio. Racismo.

 


ABSTRACT

In the midst of the COVID 19 pandemic, public education in the Federal District is committed to the remote return to educational activities, normalizing social-racial inequalities in terms of access and the guarantee of study and work conditions for school communities, also emptying the importance of collective constructions of actions. The aim here is to map, from a self-ethnographic perspective, the intersectional dynamics of oppression present in the health and illness processes that affect education through this context of a racialized pandemic. The question is to what extent active confrontation with epistemicide and structural racism as horizons against colonialism in public education can act as actions to promote health beyond this current experience. It is argued that decolonization of consciences and subjectivities, while necessary pedagogical role, can bring places of healing and foster collective engagement for a co-construction of new worlds.

Education. Health. Intersectionality. Counter-colonialism. Epistemicide.


RESUMEN

En medio de la pandemia de COVID 19, la educación pública en el Distrito Federal apuesta por el retorno remoto a las actividades pedagógicas, normalizando las desigualdades socio-raciales en términos de acceso y garantía de estudio y condiciones de trabajo para las comunidades escolares, también vaciando la importancia de construcción colectiva de acciones. El objetivo aquí es mapear, desde una perspectiva auto-etnográfica, la dinámica interseccional de la opresión presente en los procesos de salud y enfermedad que afectan la educación a través de este contexto de pandemia racializada. cómo los horizontes anticoloniales en la educación pública pueden actuar como acciones de promoción de la salud más allá de esta experiencia actual. Se argumenta que la descolonización de las conciencias y las subjetividades, como un papel pedagógico necesario, puede traer lugares de curación y alentar el compromiso colectivo para la co-construcción de nuevos mundos.

Educación. Salud. contra-colonialismo. Epistemicida. Racismo.


RIASSUNTO

Nella pandemia di COVID 19, l'istruzione pubblica nel Distretto Federale punta sul ritorno remoto alle attività pedagogiche, normalizzando le disparità socio-razziali in termini di accesso e garanzia di studio e condizioni di lavoro per le comunità scolastiche, svuotando anche l'importanza di costruzione collettiva di azioni. L'obiettivo qui è quello di mappare, da una prospettiva autoetnografica, le dinamiche intersezionali dell'oppressione presente nei processi di salute e malattia che influenzano l'educazione attraverso questo contesto di pandemia razziale e indaga il grado di confronto attivo con epistemicida e razzismo strutturale come gli orizzonti anticoloniali nell'istruzione pubblica possono agire come azioni di promozione della salute oltre questa esperienza attuale. Si sostiene che la decolonizzazione di coscienze e soggettività, in quanto ruolo pedagogico necessario, può portare luoghi di guarigione e favorire l'impegno collettivo per la co-costruzione di nuovi mondi.

Istruzione. Salute. Contro-colonialismo. Epistemicide. Razzismo.


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DOI: https://doi.org/10.33052/inter.v6i11.247746

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