QUANDO NÃO HÁ PROBLEMAS, ESTAMOS DE BOA SAÚDE, SEM AZAR NEM NADA”: PARA UMA CONCEPÇÃO EMANCIPATÓRIA DA SAÚDE E DAS MEDICINAS
DOI:
https://doi.org/10.32359/debin2026.v9.n31.p206-246Palavras-chave:
Epistemologias do SulResumo
Introdução
Em vários trabalhos produzidos no continente africano, o ato de localização de saberes dos “outros” é o momento crucial da produção de uma relação de desigualdade, pois que, a partir de então, as formas de proteção e de recuperação da saúde pré-medicina moderna passam a ser caracterizadas como terapias tradicionais, de âmbito local (Ngubane, 1981; Hewson, 1998). Quando as parteiras tradicionais, os curandeiros e a medicina verde são concebidos como os principais componentes da “medicina tradicional” (WHO, 1996), na realidade o que está em curso é uma simplificação extrema do conceito de saúde, em que não são tidas em atenção as especificidades históricas, económicas, políticas e culturais por detrás do desenvolver dos conhecimentos sobre saúde (Meneses, 2000).
Referências
Bibliografia
Appadurai, A. (1999). “Globalization and the Research Imagination”, International Social Science Journal, 160, 229-238.
Aregbeyen, J. B. O. (1996). Traditional Herbal Medicine for Sustainable Primary Health Care”, Indigenous Knowledge Monitor, 4.
Barth, F. (1995). “Other Knowledges and Other Ways of Knowing”, Journal of Anthropological Research, 51, 65-67.
Batalha, M. M. (1985). Medicina e Farmacopeia Tradicionais Bantu”, Muntu, 3, 69-84.
Carroll, L. (1977). Alice do Outro Lado do Espelho. Lisboa: Estampa.
Castanheira, N. (1979). “Curandeiros Espiritistas: Desmascarar a Mentira, Educar o Homem”, Tempo, 474, 10-12.
Chavunduka, G. L. (1994). Traditional Medicine in modern Zimbabwe. Harare: University of Zimbabwe Publications.
Comaroff, J.; Comaroff, John L. (1999). “Occult Economies and the Violence of Abstraction: notes from the South African postcolony”, American Ethnologist, 26, 279-303.
Copans, J. (1990). La longue marche de la modernité africaine: savoirs, intellectuels, démocratie. Paris: Karthala.
Cruz, D. (1910). Em Terras de Gaza. Porto.
Cruz e Silva, T. (2000). Evangelicals and Politics in Mozambique: the Universal Church of the Kingdom of God, The United Methodist Church and Maputo Zionists, in Southern Mozambique. Versão provisória para African Region Workshop on Evangelical Christianity and Political Democracy. Harare, Zimbabwe (mimeo).
Cunha, A. d. (1883). Breve Memória Acerca da Medicina entre os Cafres da Província de Moçambique. Moçambique.
Cunningham, A. B. (1995). People, Plants and Health Care in Mozambique: Background and Recommendations on Linking Ethnobotany, Plant Conservation and Health Care. Maputo, Ministério da Saúde (mimeo).
di Celerina, J. d. S. (1846). Esboço das Moléstias da Costa Oriental d’África”, Annais marítimos e coloniais, 2, 43-72.
Dozon, J.P. (1987). “Ce que valorizer la médicine traditionelle veut dire”, Politique Africaine, 28, 9-20.
Englund, H. (1996). Witchcraft, Modernity and the Person: the morality of acumulation in central Malawi, Critique of Anthropology, 16, 257-279.
Escobar, A., Pardo, M. (2000). Biodiversidad, Movimientos Sociales en las Comunidades del Pacífico Colombiano”, comunicação apresentada no Simpósio A Reinvenção da Emancipação Social, realizado em Coimbra, de 23 a 26 de Novembro.
Fassin, E.; Fassin, Didier (1988). "De la question de legitimation a la question de la légitimité: les thérapeutiques ‘traditionelles’ au Sénégal”, Cahiers d”Etudes Africaines, 28, 207-231.
Fisiy, C. F.; Geschiere, P. (1990). Judges and Witches, or How is the State to Deal with Witchcraft?”, Cahiers d”Etudes Africaines, 118, 135-156.
Fisiy, C.; Geschiere, P. (1996). Witchcraft, Violence and Identity: different trajectories in postcolonial Cameroon”, in R. Webner; Ranger, T. (orgs.). Postcolonial Identities in Africa. Londres: Zed Books, 193-221.
Fisiy, C., Goheen, M. (1998). “Power and the Quest for Recognition: neo-traditional titles among the new elite in Nso, Cameroon”, Africa, 68, 383-402.
Florez, M. (2000), “Protección del conocimiento tradicional?”, comunicação apresentada no Simpósio A Reinvenção da Emancipação Social, realizado em Coimbra, de 23 a 26 de Novembro.
Frelimo, Comité Central do Partido (1999). Proposta de programa do Governo 2000-2004. Maputo.
Friedman, E. C. (1996). Community Based Sales of Jeito Using Traditional Healers, Traditional Birth Attendants and APEs. Maputo: Ministério da Saúde (mimeo).
Galvão da Silva, M. (1970] (1955). Diário das Viagens Feitas pelas Terras de Manica em 1790”, in Andrade, A. A. (org.). Relações de Moçambique Setecentista, Lisboa: Agência Geral do Ultramar.
Gentili, A. M. (1999). O Leão e o Caçador: uma história da Africa sub-saariana. Maputo: Arquivo Histórico de Moçambique.
Geschiere, P. (1995). Sorcellerie et Politique en Afrique: la viande des autres. Paris: Karthala.
Gonçalves Cota, J. (1946). Projecto Definitivo do Código Penal dos Indígenas da Colónia de Moçambique. Lourenço Marques: Imprensa Nacional.
Goody, J. (1979). La raison graphique: la domestication de la pensée sauvage. Paris: Ed. Minuit.
Green, E. C. (1996). Indigenous Healers and the African State. New York: Pact Publications.
Green, E. C., Goodman, Kenneth G., Hare, Martha. (1999). Ethnobotany, IPR and benefit-sharing: the Forest People’s Fund in Suriname”, Indigenous Knowledge and Development Monitor, 7.
Hess, D. J. (1994). Science and Technology in a Multicultural Worid: the cultural politics of facts and artifacts. New York: Columbia University Press.
Hewson, M., G. (1998). “Traditional Healers in Southern Africa”, Annals of Internal Medicine, 15, 1029-1034.
Hobsbawm, E. (1988). Introduction: inventing tradition”, in Hobsbawm, E.; Ranger, T. (orgs.). The Invention of Tradition. Cambridge: Cambridge University Press.
Honwana, Alcinda M.R.M. (1996). Spiritual Agency and :Self-Renewal in Southern Mozambique. Dissertação de doutoramento, School of Oriental and African Studies. Londres: University of London.
Instituto Nacional de Estatística (1999). Inquérito Demográfico e de Saúde, 1997. Maputo: Instituto Nacional de Estatística & Demographic and Health Surveys.
Junod, H. P. (1939). “Os Indígenas de Moçambique no Século XVI e Começo do Século XVII Segundo os Antigos Documentos Portugueses da Época dos Descobrimentos, Moçambique Documentário Trimestral, 17: 5-34.
Junod, H. P. (1996 [1917]). Usos e Costumes dos Bantu. 2 vol. Maputo: Arquivo Histórico de Moçambique.
Jurg, A. (1992). HIV, STD and Traditional Medicine. Approaches in Mozambique”, VIII International conference on AIDS - III STD World Congress. Amesterdão (mimeo).
Jurg, I.; de Jong, J.; Tomás, T.; Marrato, J.; Wilisone, M.; Kirchner, G. (1991). Fornecedores e Utentes de Cuidados de Saúde, Modernos ou Tradicionais, em Maputo, Moçambique: opiniões e preferências mútuas. Maputo: GEMT - Ministério da Saúde
Lambert, J., Albano, Gabriel (1997). Mozambique’s Medicinal Plants: a proposed draft agenda for sustainable utilization. Maputo: GEMT - Ministério da Saúde (mimeo).
Liengme; G. (1844-1894).“Quelques observations sur les maladies des indigenes des provinces de Lourenço Marques et Gaza, Bulletin de la Société Newchateloise de Géographie, 8, 180-191.
MacCormack, C. (1986). “The articulation of Western and Traditional System of Health Care”, in Last, M.;. Chanvunduka, G. L. (orgs.), The Professionalisation of African Medicine. Manchester: Manchester University Press, 151-162.
Machel, S. (1981). “A Escola é uma Base Científica”, Tempo, 549, 37-42:
Madão, Z. T. (1971 [1921]). “A Minha Medicina”, A Voz de Moçambique, 18 de Julho de 1971, 9, 18.
Manjate, E. (2000). “Na Ametramo: curandeiros em luta”, Savana, 1 de Setembro de 2000, 13.
Mappa, S. (1998). Pouvoirs traditionnels et pouvoir de l’Etat en Afrique: l’illusion universaliste. Paris: Karthala.
Marrato, J. (1995). Seminário Colaborativo Modelo entre a Medicina Moderna e a Medicina Tradicional na Província de Nampula. Ministério da Saúde: GEMT.
Maugham, R. C. F. (1906). Portuguese East Africa: the history, scenery and great game of Manica and Sofala. Londres: John Murray.
Meneses, Maria Paula (2000). Medicina Tradicional, Biodiversidade e Conhecimentos Rivais em Moçambique”, Oficina do CES, 150.
Monekoso, G. L. (1994). “WHO Deplores Africa’s Health Crises”, WHO Newsletter, 9 (2).
Muthemba, A. S. (1970). “Usos e Costumes do Sul de Moçambique”, O Cooperador de Moçambique, 10.
Nathan, T.; Stengers, Isabelle (1995). Le médecin et le charlatan. Manifeste pour une psychopatologie scientifique. Paris: Les empecheurs de penser en rond.
Ngubane, H. (1981). “Clinical Practice and Organization of Indigenous Healers in South Africa”, Social Science and Medicine, 15B, 361-366.
Nordstrom, C. (1991). Formalizing Traditional Medicine. Maputo: Ministério da Saúde (mimeo).
O’Laughlin, B. (2000). “Class and the Customary: the ambiguous legacy of the indigenato in Mozambique”, African Affairs, 99, 5-42.
Ong, A. (1996). “Antropology, China and Modernities: the geopolitics of cultural knowledge, in H. L. Moore (org.), The future of anthropological knowledge. Nova lorque: Routledge, 60-92.
Phaindanne (2000). “A Feitiçaria não é um Mito, é uma Realidade”, Demos, 5 de julho de 2000, 14, Maputo.
Pina, L. (1940). “A Medicina Indígena da África Portuguesa”, Memórias e Comunicações ao IX Congresso Colonial do Mundo Português, vol. XIV (1). Lisboa, 177-207.
Polanah, L. D. (1967-68). “Possessão e Exorcismo em Moçambique”, Memórias do Instituto de Investigação Científica de Moçambique, 9 (C).
Polanah, L. (1987). O Nhamussoro e Outras Funções Mágico-religiosas. Coimbra: Instituto de Antropologia da Universidade de Coimbra.
Santos, Boaventura de Sousa (1987). “Law: a map of misreading. Toward a postmodern conception of law”, Journal of Law and Society, 14.
Santos, Boaventura de Sousa (1995). Toward a New Common Sense: law, science and politics in the paradigmatic transition. New York: Routledge.
Santos, Boaventura de Sousa (1998). La globalización del derecho: los nuevos caminos de la regulación y la emancipación. Bogota, ILSA: Universidad Nacional de Colombia.
Santos, Boaventura de Sousa (2000). A Crítica da Razão Indolente: contra o desperdício da experiência. Porto: Afrontamento.
Santos, Boaventura de Sousa (2003). “O Estado Heterogéneo e o Pluralismo Jurídico”, in Santos, B. S.; Trindade, J. C. (orgs.). Conflito e Transformação Social em Moçambique: uma paisagem das justiças em Moçambique, vol. 1. Porto: Afrontamento.
Santos Junior, J. R.; Barros, F. (1952). Notas Etnográficas de Moçambique”, XIII Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências, vol. V. Lisboa, 609-623.
Santos Reis, C. (1952). “A ‘Arte Indígena de Cura?’ em terras de Zavala”, Moçambique Documentário Trimestral, 71, 37-58.
Schoffeleers, M. (1991). “Ritual Healing and Political Acquiescence; the case of the zionist churches in southern Africa”, Africa, 60, 1-25.
Serviço de Nutrição, DNMP (1981). “Alguns Resultados Preliminares do Trabalho do GEMT (Grupo de Estudos de Medicina Tradicional)”, Cadernos de Saúde, 1.
Silva Tavares, J. A. (1948). “A Arte Indígena de Curar”, Moçambique Documentário Trimestral, 53, 111-132.
Simões Alberto, M. (1965). “Elementos para um Vocabulário Etnográfico de Moçambique”, Memórias do Instituto de Investigação Científica de Moçambique, 7, 171-228.
Swalbach, M. T. F. S.; Swalbach, João F. L. (1970). “Aspectos Gerais da Medicina Negra de Moçambique”, Revista dos Estudantes da Universidade de Lourenço Marques.
Taussing, M. (1987). Shamanism, Colonialism and the Wild Man. A study of terror and healing. Chicago: University of Chicago Press.
Temba, J. (1992). Mirhi (misinya) ya ku lapha Mavabyi (medicamentos tradicionais). Maputo.
Temba, E. (2000). “Curandeiras: rupturas, descontinuidade ou subalternidades?”, Jornadas de Estudos Africanos, Barcelona (mimeo).
Tique, Saúl. (2000). “Em Sofala ‘Há Muito Feitiço’: os estereótipos dos moçambicanos, segundo pesquisa da UEM”, Imparcial (18 de Outubro), 4, Maputo.
Tomé, B. (1979). Medicina Tradicional: estudar as plantas que curam”, Tempo, 460, 13-23.
Tsenane, X. (1999). “Plantas: beleza e magia”, Tempo (7 de Novembro), 10-13.
Visvanathan, S. (2000). Between Cosmology and System. A Heuristics for Globalization, comunicação apresentada no Simpósio A Reinvenção da Emancipação Social, realizado em Coimbra, de 23 a 26 de Novembro.
Xaba, T. (1999). “A Disenchanted Modernity: the accommodation of African medicine in contemporary South Africa”, in Sitas, A.; Silva, A.T. (orgs.) Gathering voices: perspectives on the social sciences in Southern Africa. Durban, 155-170.
Xaba, T. (2000). “Development and its Discontents - the marginalization of indigenous medicines in South Africa”, comunicação apresentada no Simpósio A Reinvenção da Emancipação Social, realizado em Coimbra, de 23 a 26 de Novembro.
WHO (1978). Primary Health Care. Geneva: World Health Organization.
WHO (1996). “Traditional Medicine”, WHO Fact Sheet, 134, 3.
World Bank (1994). Better Health in Africa: Experience and lessons learned. Washington: The World Bank.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
