SABORES, AROMAS E CONHECIMENTOS: DESAFIOS A UMA EPISTEMOLOGIA DOMINANTE
DOI:
https://doi.org/10.32359/debin2026.v9.n31.p334-358Palabras clave:
Epistemologias do SulResumen
Vozes que expõem tramas de sabores que a história hegemónica desconhece
Pode o conhecimento de mulheres, sob a forma de receitas, parte da rede de saberes que conjuga o oceano Índico, produzir uma imagem mais ampla sobre contactos, história, para lá do imaginário colonial predominante? Assente num conjunto de conversas e de aprendizagens, a que se juntaram informações recolhidas em vários média e arquivos,[1] procura-se neste capítulo, a partir do desafio das epistemologias do Sul (Santos, 2007, 2018),[2] compreender como a comida, ao invocar outras histórias, contactos culturais e processos identitários, possibilita o emergir de outras ontologias a partir das lutas das mulheres na construção de redes de saberes. No centro desta proposta está uma viagem pelos caminhos de aromas e sabores, rotas silenciadas quer pela narrativa colonial dominante, quer pela hegemonia das histórias nacionais.[3]
[1] Em Goa, é de referir o Arquivo Histórico de Goa, assim como os documentos guardados na Biblioteca Estatal Central, em Panjim. Em Maputo, consultei o Arquivo Histórico de Moçambique. Na sequência do desafio de Ann Laura Stoler (2002), os arquivos consultados foram vistos como locais de produção de conhecimento sobre a alteridade, como monumentos da constituição do saber estatal colonial. Questionar a construção do conhecimento colonial e as representações hegemónicas que este gerou e que continuam a ser aceites, exige que se estude a agência do próprio arquivo colonial como produtora de conhecimento.
[2] As epistemologias do Sul não são o oposto simétrico das epistemologias do Norte — no sentido de se opor um único conhecimento válido ao outro. São a referência a um conjunto heterogéneo de saberes silenciados, subalternizados e invisibilizados pela racionalidade moderna (Santos, 2018).
[3] Se as dicotomias coloniais insistem na oposição colonizador-colonizado, já nos novos contextos nacionais (que emergem com as independências), a oposição principal centra-se entre elites e subalternos, que questiona a natureza do “projeto nacional”; pelo contrário, este é reforçado pelas narrativas sobre a “cozinha nacional” (Ferguson, 1998: 600; Palmer, 1998: 183).
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